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Rock and Roll é o nosso trabalho – a Legião Urbana do underground ao mainstream

Esta é sem dúvida uma das melhores análises já realizadas sobre o rock brasileiro feito na década de 80. Amparada em forte rigor acadêmico no trato das fontes e bibliografia, a obra alcança profundidade inaudita em outros livros que tratam do mesmo objeto.

Lançado em 2013 pela editora Alameda e com o apoio da FAPESP, o livro “Rock and Roll é o nosso trabalho – A Legião Urbana do underground ao mainstream“, de Érica Ribeiro Magi, é uma contribuição mais que bem vinda a qualquer um que se interesse sobre o chamado “boom” do rock brasileiro nos anos oitenta. Aliás, a obra vai além: Investiga o processo de profissionalização e consolidação do gênero de origem norte-americana no país.

Embora a Legião seja o eixo central, sua análise acaba se desdobrando sobre outras bandas e artistas do mesmo cenário. Contrariando o senso comum (um tanto o quanto equivocado por um lado, mas justificado por outro) do que venha a ser um trabalho acadêmico (o livro é baseado em sua tese de mestrado em sociologia pela UNESP), não é hermético nem cansativo.

Esta origem não implica em que esta obra seja impenetrável aos não iniciados, e muito menos que se embrenhe por explicações intricadas e vocabulário rebuscado. Pelo contrário. Um dos grandes méritos deste trabalho é justamente o equilíbrio entre a seriedade na pesquisa e a linguagem acessível, que não nivela por baixo mas também não peca pelo pedantismo. De quebra, também é um achado para quem gosta de entender as inter-relações entre arte, sociedade e consumo.

“Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido” – O desprestígio inicial do rock brasileiro

Como a própria autora destaca na introdução, a escolha deste objeto de estudo foi alvo de desdém por parte dos intelectuais durante muito tempo, não sendo um tema de prestígio acadêmico ou consagrado na bibliografia. A frase da música de Rita Lee no título acima é sintomática deste preconceito.

Renato Russo, líder da Legião Urbana, uma das principais bandas do rock brasileiro dos anos 80

A este panorama, soma-se o total desinteresse pelo rock brasileiro por parte das rádios, gravadoras e jornalismo especializado. O contexto histórico (que Érica situa muito bem) nos ajuda a compreender as razões. Nos anos 60 e 70, o debate cultural centrava-se em discutir a questão do nacional e do popular. Num cenário que tinha a ditadura como pano de fundo, este debate era importante para os intelectuais. Tanto o jornalismo especializado quanto o público universitário se identificavam ideologicamente, em sua maioria, com a esquerda.

E suas concepções sobre o que era “nacional”e “popular” determinavam o que devia ser estimulado ou não. Deste modo, a MPB era privilegiada em todas as suas variáveis, do samba ao tropicalismo, passando pelos ritmos regionais. Deste modo, o embrião do rock brasileiro nos anos 60, a Jovem Guarda, era tomada como fútil e alienada.  Nos anos 70, a desqualificação sobre os roqueiros brasileiros, se tornou mais moralista, taxando-os de drogados e subversivos.

Assim, Érica desvenda o porque de a mídia da época ter valorizado no rock brasileiro apenas Mutantes, Secos e Molhados e Rita Lee, enquanto não dava tanto destaque a outras bandas da pré-história do rock brasileiro, como Casa das Máquinas e Made in Brazil. Os artistas do primeiro grupo incorporavam mais – ou de forma mais evidente – elementos da música brasileira.

Formação e consolidação da crítica especializada e do público consumidor

A autora vai assim montando um quebra-cabeças que se desvenda diante dos olhos do leitor, que assim pode entender como somente nos anos 80 houve as condições que permitiram a profissionalização do rock tupiniquim. Esta consolidação se deu com a participação de vários agentes, que faziam parte de uma mesma cena. Estas pessoas frequentavam os mesmos lugares e festas, ouviam as mesmas bandas, tinham um mesmo repertório cultural.

Parte destas pessoas formaram bandas, adquiram funções técnicas ou gerenciais em gravadoras e se tornaram jornalistas e repórteres musicais. Alguns personagens acumularam mais de uma destas funções, sendo às vezes difícil perceber os limites entre elas. Assim, percebe-se como a profissionalização destes agentes sociais se deu de forma quase simultânea. Foi um aprendizado coletivo que envolveu gravadoras, jornalistas, músicos e o público roqueiro em formação.

A obra ainda discute uma série de questões intrigantes para o entendimento do rock feito no Brasil nos anos 80. Vou apenas esboçar algumas destas questões, de modo que elas abram o apetite pela leitura sem saciar sua fome. Uma delas é a diferenciação entre o “rock carioca” e o rock urbano de Brasília e São Paulo. O primeiro tendia a ser mais alegre, festivo e solar, e o segundo, mais sombrio e taciturno. Estas diferenças não podem ser vistas de forma estanque, mas elas são perceptíveis tanto nas letras quanto na música.

Disco de estreia da Blitz, de 1982, espécie de marco inicial do “BRock”e exemplo do otimismo e irreverência do “rock carioca”

Uma das razões explicativas desta diferença se refere às referências musicais de cada grupo. As bandas de São Paulo e de Brasília foram bastante influenciados pelo advento do punk, notadamente pelas bandas inglesas. No caso da turma de Brasília, o isolamento geográfico acirrava o pessimismo e o niilismo reinantes.

Renato Russo: De artista a crítico

Outro ponto interessantíssimo levantado por Érica é uma análise da obra poética e da trajetória de Renato Russo. Ela discute a forma como Renato constrói suas personagens femininas, exemplificando com letras como Eduardo e Mônica. A análise das canções não aborda apenas as da Legião, mas também as gravadas pelo Capital ou nunca lançadas.

A autora ainda destaca a mudança de perfil de Renato ao longo dos anos. De “mero” artista criador e músico, ele vai se transformando em crítico e formador de opinião. Mostra como ao contrário de muitos músicos, ele valorizava as entrevistas e sabia aproveitar seu espaço de fala. Também jornalista e ávido colecionador e consumidor de música, Renato se investiu deste saber ao longo dos anos. Assim, com o passar dos anos, a cada entrevista, crescia seu poder de influência sobre o fazer musical.

Sociologia do Rock Brasileiro

Enfim, trata-se de uma obra profunda e investigativa, calcada num sério trabalho de pesquisa. Além de letras de músicas, Érica analisou dezenas de entrevistas, recolhidas das mais diversas fontes. Fora as fontes impressas, ela consultou documentários e conversas em áudio e vídeo, além de realizar suas próprias entrevistas. Estas foram realizadas com profissionais relevantes do rock nacional, como o produtor Mayrton Bahia, da Legião. Outras entrevistas foram concedidas por jornalistas pioneiros do campo no Brasil, como Arthur Dapieve e Bia Abramo.

Embora o atual panorama acadêmico esteja se abrindo para novos objetos de estudo, o BRock segue carecendo de análises sérias. O trabalho de Érica ajuda a suprir esta lacuna e abre novas perspectivas investigativas sobre este tema.

Passando longe da superficialidade de outros livros que abordam o rock no Brasil, esta é uma obra essencial. Leitura obrigatória a todos os legionários e aos interessados na relação entre cultura e consumo. Verdadeiro tratado sociológico sobre a consolidação do rock no Brasil e sua absorção pela indústria cultural. Leia no volume máximo.

O livro pode ser adquirido através do site http://www.alamedaeditorial.com.br

FICHA TÉCNICA

Título: Rock and Roll é o nosso trabalho – A Legião Urbana do underground ao mainstream

Autora: Érica Ribeiro Maggi

Editora: Alameda

Páginas: 231

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